SOMOS TODOS ESCRAVOS DE FORÇAS INCONSCIENTES?


 Todos nós tomamos centenas de decisões todos os dias, mas até que ponto elas são influenciadas por fatores inconscientes?

Magda Osman - uma leitora de psicologia experimental na Queen Mary University de Londres - explora como as forças inconscientes moldam nosso processo de tomada de decisão no dia-a-dia.

Por que você comprou seu carro? Por que você se apaixonou pelo seu parceiro? Quando começamos a examinar a base de nossas escolhas de vida, sejam elas importantes ou bastante simples, podemos chegar à conclusão de que não temos muita ideia. Na verdade, podemos até nos perguntar se realmente conhecemos nossa própria mente e o que se passa nela fora de nossa percepção consciente.

Felizmente, a ciência psicológica nos dá insights importantes e talvez surpreendentes. Uma das descobertas mais importantes vem do psicólogo Benjamin Libet na década de 1980. Ele planejou um experimento que era aparentemente simples, mas criou um enorme debate desde então.

As pessoas foram convidadas a sentar-se relaxadamente em frente a um relógio adaptado. No mostrador do relógio havia uma pequena luz girando em torno dele. Tudo o que as pessoas precisavam fazer era flexionar os dedos sempre que sentissem a necessidade e lembrar a posição da luz no mostrador do relógio quando sentissem a necessidade inicial de fazê-lo. Ao mesmo tempo em que tudo acontecia, as pessoas tinham sua atividade cerebral registrada por meio de um eletroencefalograma (EEG), que detecta níveis de atividade elétrica no cérebro.

O que Libet conseguiu mostrar foi que os tempos realmente importam e fornecem uma pista importante sobre se o inconsciente desempenha ou não um papel significativo no que fazemos. Ele mostrou que a atividade elétrica no cérebro se acumulava muito mais cedo do que as pessoas intencionavam conscientemente flexionar o dedo, e então passou a fazê-lo.

Em outras palavras, os mecanismos inconscientes, por meio da preparação da atividade neural, nos preparam para qualquer ação que decidamos realizar. Mas tudo isso acontece antes de experimentarmos conscientemente a intenção de fazer algo. Nosso inconsciente parece governar todas as ações que realizamos.

Mas, à medida que a ciência progride, somos capazes de revisar e melhorar o que sabemos. Agora sabemos que existem vários problemas fundamentais com a configuração experimental que sugerem que as afirmações de que nosso inconsciente rege fundamentalmente nosso comportamento são significativamente exageradas. Por exemplo, ao corrigir os vieses nas estimativas subjetivas da intenção consciente, a lacuna entre as intenções conscientes e a atividade cerebral se reduz. No entanto, as descobertas originais ainda são convincentes, mesmo que não possam ser usadas para afirmar que nosso inconsciente governa completamente nosso comportamento.

Manipulação inconsciente

Outra maneira de abordar a ideia de se somos, em última análise, governados por nosso inconsciente, é observar os casos em que podemos esperar que ocorra a manipulação inconsciente. Na verdade, em minha pesquisa, perguntei às pessoas o que eram.

O exemplo mais comum foi marketing e publicidade. Isso pode não ser uma surpresa, visto que muitas vezes nos deparamos com termos como "publicidade subliminar", o que implica que somos orientados a fazer escolhas do consumidor de maneiras que não temos nenhum controle consciente.

James Vicary, que foi profissional de marketing e psicólogo na década de 1950, trouxe o conceito à fama. Ele convenceu um dono de cinema a usar seu dispositivo para enviar mensagens durante a exibição de um filme. Mensagens como "Beba coca-cola" brilhavam por um milésimo de segundo. Ele afirmou que as vendas da bebida dispararam depois que o filme acabou. Após o furor significativo em torno da ética dessa descoberta, Vicary confessou e admitiu que tudo era uma farsa - ele inventou os dados.

Na verdade, é notoriamente difícil mostrar em experimentos de laboratório que o piscar de palavras abaixo do limite consciente pode nos preparar para até mesmo pressionar botões em um teclado que estão associados a esses estímulos, quanto mais nos manipular para realmente mudar nossas escolhas no real mundo.

O mais interessante em torno dessa polêmica é que as pessoas ainda acreditam, como tem sido demonstrado em estudos recentes, que métodos como a propaganda subliminar estão em uso, quando de fato existe legislação que nos protege dela.

Tomada de decisão inconsciente?

Mas tomamos decisões sem pensar conscientemente? Para descobrir, os pesquisadores investigaram três áreas: até que ponto nossas escolhas são baseadas em processos inconscientes, se esses processos inconscientes são fundamentalmente tendenciosos (por exemplo, sexista ou racista) e o que, se houver algo, pode ser feito para melhorar nosso tomada de decisão tendenciosa e inconsciente.

Para o primeiro ponto, um estudo fundamental examinou se as melhores escolhas feitas em ambientes de consumo eram baseadas no pensamento ativo ou não. As descobertas surpreendentes foram que as pessoas fazem escolhas melhores quando não pensam em nada, especialmente em ambientes de consumo complexos.

Os pesquisadores argumentaram que isso ocorre porque nossos processos inconscientes são menos restritos do que os processos conscientes, que fazem grandes demandas em nosso sistema cognitivo. Os processos inconscientes, como a intuição, funcionam de maneiras que sintetizam automática e rapidamente uma gama de informações complexas, e isso dá uma vantagem sobre o pensamento deliberado.