ESTUDO TRAZ INFORMAÇÕES SOBRE "ÁGUA ALIENÍGENA" EM URANO E NETUNO


Cientistas da Scuola Internazionale Superiore di Studi Avanzati, na Itália, e da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, desenvolveram um método que promete nos ajudar a compreender os núcleos de Urano e Netuno. A pesquisa, publicada em julho na Nature Communications, se baseou em simulações de computador da água contida nos gigantes de gelo do Sistema Solar.

O foco dos estudiosos foi avaliar a condução de eletricidade e calor da água em condições extremas de temperatura e pressão, como as presentes nos gigantes de gelo e em alguns exoplanetas. Isso porque, o que se sabe sobre o núcleo de um planeta é baseado nas características de sua superfície e de seu campo magnético, que são influenciadas pelas características físicas de sua estrutura interna.

"Por isso, desenvolvemos um método teórico e computacional para calcular a condutividade térmica e elétrica da água, [considerando] as fases e as condições desses corpos celestes", explicaram Federico Grasselli e Stefano Baroni, coautores do estudo, em declaração à imprensa.

O modelo foi criado a partir de simulações da dinâmica microscópica dos átomos e incorporou a natureza quântica dos elétrons. Segundo os cientistas, "simulando [o que ocorre] em escala atômica em frações de um nanossegundo, somos capazes de entender o que aconteceu a enormes massas em escalas de tempo de bilhões de anos".

"Água alienígena"

Além de considerar a água em estados sólido e líquido, os estudiosos analisaram a substância em sua versão superiônica — ou "alienígena", como foi apelidada. Essa fase só existe sob temperatura e pressão extremas, que causam a dissociação das moléculas de água em átomos com cargas elétricas (íons) positivas e negativas.

Sendo assim, sabendo das condições físicas tão exóticas de Urano e Netuno, os pesquisadores acharam crucial considerar a presença de água superiônica nos gigantes gelados — e funcionou. Segundo eles, as simulações mostram que a condutividade elétrica da água superiônica é muito maior do que acreditava-se anteriormente, o que impacta diretamente os modelos atuais dos campos magnéticos desses planetas.

Além disso, graças ao método, os cientistas puderam hipotetizar que a existência de um núcleo congelado em Urano explicaria a luminosidade anormalmente baixa do planeta. "[Pode haver] um fluxo de calor extremamente baixo de seu interior para a superfície", observaram Grasselli e Baroni.