A VIDA DE JOSEPH MERRICK "O HOMEM ELEFANTE"

A face de Joseph Merrick - Wikimedia Commons

Em 1866, nascia em Leicester, na Inglaterra, Joseph Merrick — o garoto que, anos mais tarde, ganharia o insólito apelido de Homem Elefante. Apesar da lenda dizer que a mãe de Joseph foi pisoteada por um elefante enquanto o carregava em seu ventre, ele nasceu sem nenhuma anomalia aparente.

As mudanças em seu corpo começaram quando ele tinha aproximadamente 5 anos, entretanto, elas eram imperceptíveis e Merrick vivia como qualquer pessoa de sua idade. Aos 12 anos, aconteceu aquilo que, segundo ele, seria a maior tragédia de sua vida: sua mãe morreu de broncopneumonia.

A partir daí, ele passou a viver dias cruéis. As deformações em seu corpo cresceram cada vez mais. Angustiado, o pequeno Merrick passou a ser alvo constante de brincadeiras desrespeitosas na escola. Sem sua mãe para consolá-lo, ele optou por abandonar os estudos.

Como se sua própria vida não fosse melancólica o suficiente, seu pai casou novamente e a madrasta passou a maltratá-lo constantemente. Seu pai também já não demonstrava nenhuma afeição, e assim o garoto deformado estava essencialmente sozinho. Ele não podia nem fugir. Nas poucas vezes em que tentou, seu pai o trouxe de volta.

Como não frequentava a escola, sua madrasta exigia que ele trouxesse algum tipo de renda para casa. Então, aos 13 anos, Merrick arrumou emprego em uma loja de cigarros. Lá, ficou por três anos, mas uma deformação em sua mão afetou seu desempenho.

Joseph Merrick por volta de 1889 / Crédito: Wikimedia Commons

Com 16 anos e sem emprego, Joseph Merrick andava pelas ruas durante o dia, procurando trabalho. Tentou vender mercadorias de porta em porta na loja de seu pai, mas seu rosto contorcido tornava o discurso ininteligível. Sua aparência assustava os possíveis clientes, que evitavam ao máximo abrir a porta para atendê-lo.

O começo no Freak Show e a perspectiva de melhora

A situação de Joseph com sua ‘família’ se tornou insustentável no dia que seu pai o espancou severamente. Sem encontrar outra alternativa, o jovem fugiu de casa para nunca mais voltar. Abandonado, depois de passar alguns anos vivendo com seu tio, ele escreveu uma carta para o artista musical Sam Torr, que optou por levá-lo em uma turnê. Assim, em 1884, o "meio homem, meio elefante" iniciou sua carreira no Freak Show.

Com o chamado ‘circo dos horrores’, ele passou por diversas cidades inglesas, como Nottingham e Londres. Inclusive, na última, foi que sua vida ganhou mais um capítulo importante. Lá, iniciou a se apresentar na casa de show de Tom Norman — que o abrigou por algum tempo.

Cartaz da apresentação de Joseph Merrick / Crédito: Creative Commons

Em um dia, Tom observou Merrick dormindo, ele estava sentado, com as mãos agarrando as pernas e a cabeça apoiada sobre os joelhos. Norman percebeu que o jovem não conseguia dormir deitado, já que o enorme peso de sua cabeça poderia esmagar seu pescoço.

Com um talento natural para levar pessoas à casa, Tom fez com que o show do “homem elefante” fosse um sucesso. Partes do lucro eram repartidos com Merrick, que esperançosamente guardava parte dos ganhos para comprar sua própria casa em um futuro próximo.

A casa de Tom ficava do outro lado da rua do hospital de Londres, onde trabalhava o Doutor Frederick Treves. Curioso pelos comentários sobre o espetáculo do “homem elefante”, o médico decidiu marcar uma hora antes do trabalho para visitá-lo.

Joseph Merrick por volta de 1889 / Crédito: Wikimedia Commons

Horrorizado, ele perguntou se poderia levar Merrick para realizar um exame no hospital. Ao longo de algumas visitas, Treves fez algumas anotações e também o medicou. Mas a essa altura, os Freak Show estavam perto do fim. A polícia fechava as casas de espetáculo por questões de moralidade e decência.

Mudança para a Europa e o retorno à Leicester

Nesta época, Merrick já ganhava muito dinheiro pelo sucesso de seu show, e como consequência, foi transferido por seus gerentes de Leicester para a Europa continental na esperança de encontrar leis brandas.

Na Bélgica, o novo gerente roubou todo seu dinheiro e o abandonou. Preso em um lugar estranho, Joseph Merrick não sabia o que fazer. Por sorte, ele conseguiu embarcar em um navio para Essex e depois um trem para Londres.

Chegando à estação de Liverpool, exausto e ainda sem teto, ele pediu ajuda a estranhos para retornar a Leicester. Logo uma multidão se reuniu em sua volta e a polícia teve que agir, o detendo.

O Doutor Frederick Treves / Crédito: Wikimedia Commons

Uma das únicas coisas que Merrick tinha guardado era o cartão do Dr. Treves, que foi contactado imediatamente e o levou de volta ao hospital, garantido que ele fosse limpo e alimentado.

Após ser examinado, Treves determinou que Merrick desenvolveu um problema cardíaco e que ele, provavelmente, tinha apenas alguns anos de vida.

A vida normal e o seu trágico fim

O presidente do comitê do hospital escreveu um editorial no The Times, contando a história de Joseph e pedindo ajuda para ele. Muitas doações foram recebidas e, agora, o hospital de Londres agora tinha fundos para cuidar de Merrick pelo resto da vida.

No porão do hospital, dois quartos adjacentes foram especialmente adaptados para ele. O lugar não tinha espelhos, para evitar lembra-lo de sua aparência, e um acesso ao pátio. Nos últimos quatro anos em que ficou no hospital, ele aproveitou sua vida mais do que nunca.

Treves o visitava quase todos os dias. Ele considerava Merrick uma pessoa com um intelecto completamente normal. Afinal, embora Joseph tivesse completa ciência da injustiça que permeava sua existência, ele jamais demostrou desafeto em relação ao mundo que parecia sempre virar de costas quando ele mais precisava.

Apesar de viver uma vida normal nos últimos anos, o estado de saúde de Merrick diminuía constantemente. As deformidades em seu rosto, assim como toda a cabeça, continuaram a crescer. Em 11 de abril de 1890, um funcionário do hospital encontrou ele morto em sua cama.

Foto da placa do túmulo de Joseph Merrick / Crédito: Creative Commons